A senadora Tereza Cristina (PP-MS) cobrou maior responsabilidade na condução das contas públicas e alertou para os reflexos dos juros elevados sobre o setor produtivo, especialmente no acesso dos produtores rurais ao financiamento. A declaração foi feita nesta terça-feira, 25/08, durante a Agenda Brasil – Crescimento, Emprego e Competitividade, em São Paulo.
Realizado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Grupo Estado, o encontro reúne lideranças do setor produtivo, parlamentares, economistas e especialistas para discutir responsabilidade fiscal, qualidade do gasto público, produtividade, geração de empregos e competitividade.
Ao abordar o cenário econômico, Tereza Cristina afirmou que a CNA “acertou no timing” ao promover o debate sobre responsabilidade fiscal em um momento de preocupação com a trajetória das despesas públicas.
“Em 2023, votei contra o arcabouço fiscal porque sabia que ele não daria certo da forma como foi colocado. Não por ser oposição ou situação, mas porque a proposta não garantiu o ajuste fiscal. Permitiu o aumento das despesas sem garantir as receitas necessárias”, afirmou.
A senadora também questionou a qualidade dos gastos e a capacidade do atual modelo fiscal de conter o crescimento das despesas. “Não se questionava a qualidade dos gastos e nem a austeridade. As despesas estão crescendo acima dos limites que o próprio governo criou. Onde serão feitos os cortes? Ajuste de verdade tem endereço”, disse.
Tereza Cristina relacionou ainda o equilíbrio das contas públicas à qualidade dos serviços entregues à população. “Onde estão os serviços públicos para a sociedade que está no meio desse desequilíbrio econômico? Todos estão endividados”, questionou.
Juros chegam ao campo
Tereza Cristina, que é líder do PP e vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Senado, relacionou a expansão das despesas e a incerteza em relação às contas públicas à manutenção dos juros em níveis elevados. Segundo ela, o problema chega diretamente ao setor produtivo. “Temos despesas novas a todo momento. Isso gera desconfiança e se reflete na taxa de juros”, afirmou.
No campo, a senadora chamou a atenção para o encarecimento dos financiamentos e para as dificuldades enfrentadas pelos produtores para acessar recursos em condições compatíveis com a atividade. “O crédito rural está deixando de caber no bolso do produtor”, alertou.
O cenário agrava o endividamento rural, especialmente após sucessivas safras afetadas por eventos climáticos extremos. Tereza Cristina falou sobre a urgência de garantir previsibilidade de recursos e ampliar o alcance do seguro rural para proteger a renda do produtor e evitar que perdas provocadas por secas, enchentes e outros eventos adversos resultem em novos ciclos de renegociação de dívidas.
A senadora também destacou a capacidade da agropecuária brasileira de gerar resultados e contribuir para a economia, mesmo em cenário adverso. “O agro é um sucesso neste país”, afirmou.
Com informações da Agência FPA
Leia abaixo a íntegra do discurso de Tereza Cristina a abertura do evento
“Bom dia a todos.
Quero começar cumprimentando o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, meu grande amigo João Martins; e o diretor-geral do Senar, Daniel Carrara.
Cumprimento o presidente do Instituto CNA, Roberto Brant, e, na pessoa dele, todos os palestrantes e moderadores que aceitaram o convite para estar aqui hoje: Selene Peres, Marcos Mendes, José Roberto Mendonça de Barros, Isabel Mendes, Paulo Tafner, Laura Muller Machado, André Portela e Pedro Fernando Nery.
Cumprimento também os produtores, as lideranças empresariais e todos os que vieram participar deste debate. É uma satisfação abrir com vocês a Agenda Brasil – Crescimento, Emprego e Produtividade
A CNA acertou na hora e no tema – responsabilidade fiscal.
Porque não existe dinheiro que não venha de quem produz. O governo não tem dinheiro: o governo recebe o dinheiro dos pagadores de impostos, trabalhadores, empreendedores e empresários. E esse dinheiro tem que ser aplicado com o maior cuidado, porque ele não é dos gestores públicos — ele é do povo brasileiro.
Em 2023, eu votei contra o arcabouço fiscal. E não foi por ser da oposição, porque faço uma oposição responsável: não voto contra o governo, voto a favor do Brasil. Votei contra porque a proposta enviada do Legislativo não garantia ajuste fiscal – garantia aumento de despesas e não necessariamente de receitas. E mais: mesmo que houvesse recorde de arrecadação, como ocorreu no governo Lula 3, não se questionava a qualidade dos gastos nem se defendia a austeridade nas contas públicas.
Três anos depois, um levantamento do Estadão, publicado ontem, mostra onde nós chegamos: quase 70% das despesas do Executivo sujeitas ao arcabouço estão crescendo acima do limite que o próprio governo criou.
Agora a Fazenda discute apertar esse limite, de 2,5% para 1,5% ao ano. E continua sem dizer onde vai cortar.
Isso não é ajuste. Ajuste de verdade tem endereço: alguém perde. Saber fazer essa escolha justa, preservando os interesses da maioria e melhorando a qualidade dos serviços públicos fundamentais para a população, mostra a qualidade da gestão de um governo.
A opção por medidas demagógicas e populistas ou por benefícios setoriais sem contrapartidas só trará desequilíbrios econômicos e falta de credibilidade no mercado. Em ano eleitoral, a tentação de criar despesa nova só aumenta. É exatamente isso que temos, infelizmente, assistido.
Os juros altos encarecem tudo. O crédito rural deixa de caber no bolso do agricultor. O investimento da indústria não sai do papel. A máquina não é comprada, o galpão não é construído, o emprego não é criado.
No campo, nós estamos vivendo isso de forma seríssima, com a escalada do endividamento e das recuperações judiciais.
E é preciso deixar claro, com muita responsabilidade: o problema brasileiro não é falta de arrecadação. Pelo contrário. Nós temos um Estado que arrecada muito, gasta mais ainda, mas gasta mal.
Por isso o debate que a CNA patrocina hoje é tão importante. E aqui fica a pergunta: se o setor produtivo é cobrado todos os dias por eficiência e por resultado, por que os gestores do orçamento público não são? E não falo apenas do Executivo, mas também do Congresso, que não pode criar despesa sem receita.
Vamos agora ao segundo tema do dia, emprego e produtividade.
O Brasil tem, neste momento, um dos menores níveis de desemprego da América Latina e, ao mesmo tempo, ocupa a 58ª posição entre 69 países no ranking de produtividade do IMD, atrás de países como Bulgária e Quênia.
Não é contradição. É diagnóstico. Sem produtividade, sabemos, não existe ganho na massa salarial que se sustente nem ganho real na renda dos trabalhadores.
Houve um setor que escapou dessa regra. Entre 1995 e 2024, apenas o agro registrou ganho de produtividade, de 5,8% ao ano, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV.
Não foi milagre. Foi ciência, foi tecnologia, eficiência na produção e qualificação do produtor rural. Sempre teremos de destacar o papel da Embrapa e do Senar. Faço questão de registrar aqui o trabalho do Senar na assistência técnica e na formação do trabalhador rural, porque quem qualifica mão de obra hoje é quem terá produtividade amanhã.
E hoje ainda faltam internet e profissionais qualificados no campo. Isso não se resolve com discurso: resolve-se com formação e com política pública consistente, inclusive de infraestrutura, que responda aos gargalos que elevam o custo Brasil.
Para terminar, quero citar uma frase do meu amigo economista e diplomata Marcos Troyjo, dita aqui em São Paulo, que resume bem o momento. Ele afirmou:
“O mundo está redistribuindo as cartas. E o Brasil tem a oportunidade de receber um jogo melhor do que aquele que tinha antes. O desafio é saber aproveitar essas oportunidades.”
Ele tem razão. Poucos países chegam a essa mesa com a cesta repleta que nós temos: alimento, bioenergia, minerais críticos, capital humano e uma diplomacia de alto nível que pode conversar bem com nossos parceiros comerciais e defender os interesses não do governo de plantão, mas do Estado brasileiro.
Mas a oportunidade não se aproveita com as contas em desordem. Orçamento desarrumado não atrai investimento: atrai desconfiança.
Porque, no fim e ao cabo, isso bate direto no prato e no bolso dos brasileiros. Contas públicas em ordem derrubam os juros. Juros menores destravam o investimento. O investimento gera emprego. E o emprego põe comida na mesa.
O Brasil não pode viver no improviso, correndo atrás do prejuízo. O país precisa de três coisas: previsibilidade, estabilidade e prosperidade.
O setor produtivo, mesmo com tanta insegurança jurídica, tem tentado fazer a sua parte. Falta o governo fazer a dele.
É com esse foco que abrimos os trabalhos de hoje. Quero muito ouvir os especialistas e os debates que acontecerão hoje aqui. Muito obrigada.”




