ABC Cerrado: exemplo da sustentabilidade do agro brasileiro

Artigo para o jornal Correio Braziliense no dia 09 de novembro de 2019

Reconhecido como potência agroambiental, o Brasil caminha para ser um dos maiores produtores sustentáveis de alimentos do mundo. Hoje a agropecuária brasileira ocupa somente 30% dos nossos 850 milhões de hectares. Consideradas apenas as lavouras, a ocupação não chega a 8% – terras utilizadas mais de uma vez, pois colhemos na mesma área, graças à tecnologia que desenvolvemos para a agricultura tropical, duas ou três safras.

Mais de 60% do território são ocupados por florestas nativas, sendo que boa parte delas está conservada em reservas legais – vegetação que os produtores rurais têm, por lei, de manter e cuidar em suas fazendas. O mercado internacional e também o nacional cobram do Brasil mais e mais preservação da nossa rica biodiversidade. O governo e os produtores, pequenos, médios e grandes, têm buscado responder às exigências do consumidor contemporâneo, aqui e lá fora. Prova desse esforço, é o Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC), lançado em 2011 e presente em todos os estados.

O Plano ABC prevê o fomento a sistemas e processos tecnológicos para ampliar a produção sustentável, contribuindo para que nossa agropecuária se adapte com maior facilidade aos efeitos adversos das mudanças climáticas, bem como possibilitando que o Brasil cumpra, até mesmo antes de se encerrar o prazo, as metas assumidas no Acordo de Paris para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

Sabe-se que a agropecuária é um dos setores mais suscetíveis às mudanças climáticas e aos efeitos desse processo – redução dos períodos de chuva, aumento de pragas e agravamento da seca, por exemplo. Nenhum agricultor quer sofrer isso e todos têm consciência de que precisam aderir às práticas sustentáveis. Está demonstrado que, no Plano ABC, as tecnologias de baixa emissão de carbono proporcionam maior rentabilidade econômica e produtividade aos produtores rurais que as adotam.

Dentro desse plano, o projeto ABC Cerrado trabalhou o manejo das terras no segundo maior bioma do país, contribuindo para a preservação da vegetação nativa na região central do Brasil e para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa.

Entre 2014 e 2019, o ABC Cerrado levou, aos pequenos e médios produtores rurais de sete estados – Goiás, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Maranhão, Bahia, Piauí, Minas Gerais – e Distrito Federal práticas simples e inovadoras para uma agropecuária de baixo carbono. Cerca de 7.800 produtores tiveram a oportunidade de conhecer e adotar modernas tecnologias de produção: recuperação de pastagens degradadas, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), sistema plantio direto e florestas plantadas.

Em parceria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), o ABC Cerrado beneficiou uma área total de 93.844 hectares, correspondentes a 110 mil campos de futebol. Até o início do ABC Cerrado, projeto financiado pelo Banco Mundial, 21,7% das propriedades usavam tecnologias de baixo carbono na região. Após quatro anos de trabalho, o índice subiu para 59,1% das propriedades. Com o projeto, 88 mil hectares de pastagens foram recuperados no cerrado.

A recuperação de pastagens envolve diferentes técnicas, que vão desde a adubação e correção do solo até a substituição do capim. Assim, a produção de pasto aumenta, sendo possível alojar mais animais, que ganham mais peso, numa mesma área. Ou seja: o empreendimento torna-se mais rentável para o pecuarista. Ao mesmo tempo, os recursos naturais são usados de forma mais racional e eficiente, reduzindo-se a pressão sob novas áreas de vegetação nativa. Tudo isso combinado garante a preservação do bioma cerrado.

Um dos dados mais relevantes observados ao longo do desenvolvimento do ABC Cerrado foi que, a cada US$ 1 investido pelo governo federal em capacitação e assistência técnica, o produtor rural colocou, do próprio bolso, US$ 7 em insumos e serviços para adotar práticas sustentáveis. Isso mostra que, como temos destacado, o produtor brasileiro preza pela proteção ao meio ambiente. E mais: comprova que o poder público não está sozinho nessa missão.

Ações como o ABC Cerrado são importantes ainda para mantermos os produtores rurais e respectivas famílias em suas terras, levarmos os jovens de volta ao campo e garantirmos, também pela integração entre lavoura e pecuária, a segurança alimentar do Brasil e de seus 160 parceiros comerciais. Sempre levando em conta a preservação do meio ambiente, ativo fundamental da nossa agropecuária.

TEREZA CRISTINA , Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e deputada federal licenciada pelo DEM-MS.